Sabesp: ações caíram demais por conta do “risco Cantareira”? JPMorgan avalia que sim

As ações da Sabesp (SBSP3) caem cerca de 7% no acumulado do ano, com os investidores monitorando os níveis baixos do principal reservatório de água do estado e os possíveis efeitos nos volumes e receitas das companhia.

O volume útil reservado do Sistema Cantareira ficou uma semana abaixo dos 20%, teve uma leve alta em razão das recentes chuvas e atingiu 20,5% de sua capacidade. O Sistema Integrado Metropolitano, que reúne o Cantareira e outros seis reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo, chegou a 29,7%, com alta de 0,5%. No entanto, especialistas ainda consideram crítica a situação do abastecimento e apontam o risco de medidas mais duras, como o racionamento.

O sistema entrou na chamada faixa de restrição no mês de outubro de 2025, quando atingiu menos de 30% da capacidade, e a quantia de água retirada do reservatório diminui para 23 metros cúbicos por segundo – a vazão em condições normais é de 31 metros cúbicos por segundo.

Porém, essa queda dos reservatórios já está precificada nas ações? Para os analistas do JPMorgan, a resposta é sim, mantendo desta forma a recomendação overweight (desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra). O preço-alvo é de R$ 160, um potencial de valorização de 29% frente o fechamento da última sexta-feira (16).

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Os analistas destacam o desempenho de SBSP3 cerca de 10% abaixo do Ibovespa neste começo de ano.

“Não ignoramos os riscos, mas acreditamos que a recente queda já precifica um cenário pessimista em que: a entrada de água fique abaixo de 50% da média histórica (versus os atuais 50–60% no Cantareira e acima de 80% nos demais reservatórios); e os impactos não sejam compensados nas revisões tarifárias”, avalia o JPMorgan.

Pelas contas do banco, a queda relativa da ação implica um VPL (Valor Presente Líquido) negativo de cerca de R$ 5,5 bilhões, cenário considerado pouco provável dada a regra regulatória de compensação de volumes e custos. Mesmo em um exercício extremo, desconsiderando qualquer compensação, o impacto estimado seria de R$ 2,7 bilhões em um quadro similar a 2014 (queda de 4% no volume e alta de 10% nos custos unitários de energia e materiais).

Quanto de chuva basta?

O JPMorgan montou modelos específicos para o Cantareira e para o sistema integrado. A conclusão central é que, se a afluência hídrica ficar em 75% da média histórica, os reservatórios se manteriam acima de 20% da capacidade, sem necessidade de medidas adicionais de economia de água.

Num cenário mais estressado — entrada de água em 50% da média até abril de 2026 e 80% depois — o banco estima um impacto de aproximadamente 3% nas vendas em volume da Sabesp em 2026 para preservar os reservatórios acima de um piso teórico de 10%.

Os dados recentes são voláteis: a afluência no Cantareira está em 45% da média dos últimos dez anos em janeiro, com chuva acumulada equivalente a 70% da média. Apenas os últimos três dias responderam por 55% de toda a precipitação do mês, ou 23% da média mensal.

“Incertezas conhecidas” e defesas da tese

Além disso, para o JPMorgan, há alguns fatores “conhecidos” para a companhia que limitam a queda das ações:

  • Regulação: a companhia tem direito a compensação por choques de volume e custos;
  • Infraestrutura hídrica: investimentos reduziram a dependência do Cantareira e incluíram projetos como a transposição do Paraíba do Sul, que adiciona cerca de 20% na oferta de água;
  • Gestão de perdas: manobras de redução de pressão na rede vêm sendo adotadas desde meados de 2025.

Do lado estrutural, o banco reforça a tese pós-privatização. A Sabesp, privatizada em julho de 2024, tem meta de atingir 100% de cobertura de água e esgoto até 2029, com cerca de R$ 66 bilhões em investimentos previstos. A empresa migrou para um regime regulatório mais pró‑mercado, vem cortando custos, ampliando concessões e melhorando a governança. O Estado de São Paulo manteve 18% do capital, e a Equatorial Energia, 15%, como parceira operacional.

Negociando perto de 1 vez EV/RAB (valor da firma/base de ativos regulatóris) esperado para 2026, a Sabesp ainda é vista pelo JPMorgan com desconto relevante frente a outras distribuidoras e empresas integradas de utilities no Brasil, o que sustenta a visão construtiva.

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