Bitcoin tem pior sequência desde 2019 e fica atrás do ouro até na correção; e agora?

Depois de um janeiro marcado por forte liquidação, o Bitcoin (BTC) entra em fevereiro pressionado, ainda buscando um ponto de estabilização após cair abaixo dos US$ 80 mil. O ativo encerrou o mês em US$ 78.500, com queda superior a 10%, acumulando a quarta baixa mensal consecutiva, a pior sequência desde o bear market de 2018–2019, quando o Bitcoin recuou por seis meses seguidos.

A queda mais acentuada ocorreu na reta final de janeiro, após a nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, movimento que levou o mercado a revisar expectativas sobre juros e liquidez. Segundo a leitura da Coinbase, a reação negativa de ativos tradicionalmente associados à proteção, como o ouro, indicou que o anúncio foi interpretado como um sinal de política monetária potencialmente mais restritiva.

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Ouro sobe, depois cai — e o Bitcoin não acompanha como proteção

Parte da frustração dos investidores veio da comparação com o ouro. O metal havia subido por várias sessões seguidas, impulsionado pela busca por proteção, mas também virou bruscamente no fim do mês, com uma forte realização de lucros. Mesmo assim, o Bitcoin não conseguiu se firmar como ativo defensivo no curto prazo: não acompanhou a subida, e passou a cair mais enquanto o ouro corrigia 11% na sexta-feira (30).

Para Karim Nabil, analista da gestora suíça 21Shares, o comportamento reflete uma diferença de função entre os dois ativos aos olhos do investidor.

“A chamada ‘desdolarização’ está aparecendo primeiro no ouro, não no Bitcoin, porque o choque dominante agora é geopolítico e fiscal, e não apenas monetário”, afirmou ao InfoMoney. “Em momentos de crise, o capital historicamente corre primeiro para o ouro.”

Segundo ele, o ouro ainda se beneficia de uma percepção de segurança construída ao longo de séculos, enquanto o Bitcoin segue reagindo mais como um ativo de risco quando a incerteza aumenta.

“Na prática, investidores vendem o que é mais líquido quando o estresse cresce. O Bitcoin entra nesse grupo e acaba sendo negociado junto com ações, não como proteção”, disse.

Bitcoin ainda é visto como ativo de risco

Essa leitura é compartilhada por outros analistas. Para Yoandris Rives Rodríguez, gerente regional da B2BINPAY para a América Latina, o problema central não é o preço atual, mas a forma como o Bitcoin ainda é percebido.

“O Bitcoin continua subvalorizado do ponto de vista da percepção”, explica. “Ouro e prata são vistos como ativos seguros. O Bitcoin ainda é tratado como um ativo de risco”.

Segundo ele, apesar de avanços regulatórios e institucionais, o mercado ainda não enxerga o Bitcoin como um instrumento de proteção em momentos de estresse.

“Enquanto isso não mudar, o Bitcoin tende a subir junto com o mercado cripto quando o apetite por risco volta, e não antes disso”, disse.

Na avaliação de Rodríguez, essa virada depende de condições macroeconômicas mais favoráveis, como juros mais baixos e maior liquidez global, algo que pode acontecer ainda ao longo deste ano.

Bitcoin e ouro estamos mesmo ligados?

Após a forte alta do ouro no início do ano, ganhou força a tese de que o movimento poderia “puxar” o Bitcoin mais à frente. A Coinbase, no entanto, questiona essa ideia.

Para David Duong, chefe global de research da corretora, não há evidência estatística consistente de que o ouro antecipe movimentos do Bitcoin de forma confiável.

“A ideia de uma rotação automática do ouro para o Bitcoin é fraca. Quando testamos diferentes janelas de tempo, o relacionamento não se sustenta de forma consistente”, afirmou, em publicação nas redes sociais.

Segundo ele, em alguns períodos os ativos até se movem na mesma direção, mas isso não é estável o suficiente para virar uma estratégia previsível.

A relação entre ouro e bitcoin também foi abordada pela investidora Cathie Wood. “Desde o início de 2020, a correlação entre o preço do bitcoin e o do ouro tem sido muito baixa, em torno de 0,14”, escreveu em publicação no X.

Segundo Wood, o fato de o ouro ter liderado ciclos anteriores não significa que exista uma ligação automática ou previsível entre os movimentos dos dois mercados.

O que pode destravar uma recuperação

Apesar do momento difícil, analistas evitam traçar um cenário estruturalmente negativo para o Bitcoin. Relatórios institucionais apontam que os fundamentos de longo prazo permanecem intactos, mas o desempenho no curto prazo segue condicionado ao ambiente macro.

Segundo os especialistas, entre os fatores que podem ajudar o ativo a se recuperar estão:

  • melhora das condições de liquidez global,
  • redução do custo de oportunidade com queda dos juros,
  • avanço de marcos regulatórios nos Estados Unidos,
  • retomada do apetite por risco dos investidores.

Em relatório, a gestora chinesa ChinaAMC, que tem mais de US$ 275 billhões sob gestão, destacou que o Bitcoin continua sensível a choques de liquidez, mas tende a se beneficiar quando políticas monetárias mais acomodatícias voltarem ao centro do debate. A dúvida agora é se Warsh seguirá contra essas medidas, ou se mudará de postura uma vez à frente do Fed.

Nas primeiras horas de fevereiro, o Bitcoin seguia pressionado, ampliando as perdas após a liquidação de janeiro. Na manhã deste domingo (1º), a criptomoeda era negociada a US$ 76.980, com queda de 5,3% em 24 horas e de 13,2% em sete dias, aprofundando a correção recente.

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