Gigante do Bitcoin, Strategy admite pela primeira vez que pode vender

A Strategy (BDR: M2ST34) está corroendo a ideia de que jamais venderia qualquer parte de seus US$ 67 bilhões em Bitcoin (BTC). Depois de anos defendendo uma filosofia maximalista em torno da criptomoeda, executivos da empresa afirmaram na terça-feira (5) que considerariam vender o ativo caso isso melhorasse a estrutura de capital da companhia ou aumentasse o indicador “Bitcoin por ação”, métrica central usada para atrair investidores ao papel.

O co-fundador e presidente do conselho, Michael Saylor, comparou a Strategy a uma incorporadora imobiliária e descreveu um cenário em que a venda de Bitcoin poderia ocorrer no futuro. “Você recompra Bitcoin com crédito, deixa valorizar e então vende Bitcoin para pagar o dividendo”, disse ele em teleconferência de resultados. “E enquanto você emite crédito acima do ponto de equilíbrio, esse negócio funciona e cresce para sempre.”

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Saylor também sugeriu que a companhia pode vender Bitcoin com prejuízo para aproveitar vantagens fiscais. “Temos um crédito tributário de US$ 2,2 bilhões parado”, afirmou. “Provavelmente venderemos algum Bitcoin para financiar um dividendo só para inocular o mercado, só para mandar o recado de que fizemos isso.”

As ações da Strategy recuaram cerca de 2%, para aproximadamente US$ 182,58 nos negócios iniciais em Nova York. O Bitcoin operou estável, em torno de US$ 81.400. O papel acumula alta de cerca de 20% no ano, enquanto a criptomoeda registra queda de aproximadamente 7% no mesmo período.

O modelo de negócio das chamadas tesourarias de ativos digitais, pioneirado pelo próprio Saylor, vem sob pressão desde a queda acentuada dos preços de criptomoedas em outubro do ano passado. Os comentários desta terça-feira reforçam como a Strategy evoluiu de uma operação de simples acumulação para uma gestão de balanço mais complexa, moldada por custos de dívida, obrigações com ações preferenciais e apetite dos acionistas.

Em entrevista à Bloomberg TV em 2024, Saylor havia dito não haver “razão para vender o vencedor”. Nos últimos meses, porém, a companhia passou a aventar a possibilidade de precisar liquidar parte de sua reserva para honrar compromissos de dividendos. Em novembro, o CEO Phong Le chegou a dizer que a venda de Bitcoin seria um último recurso. Na mais recente teleconferência, Le foi menos cauteloso: “Nossa capacidade de vender Bitcoin para comprar dólares americanos, ou vender Bitcoin para comprar dívida se isso for acretivo ao Bitcoin por ação, é algo que consideraríamos daqui em diante. Não vamos simplesmente sentar e dizer que nunca venderemos o Bitcoin.”

A S&P Global Ratings atribuiu à Strategy uma classificação de crédito especulativo em outubro do ano passado, citando o foco estreito do negócio. A agência alertou que as dívidas conversíveis da empresa podem atingir o vencimento em um período de estresse para o Bitcoin, o que poderia forçar a liquidação dos tokens a “preços deprimidos”.

Para Derek Lim, chefe de pesquisa da formadora de mercado de criptomoedas Caladan, aquela nota de crédito já sinalizava o início de uma mudança na postura de não-venda da empresa. Os comentários mais recentes de Le “apenas tornaram isso mais oficial, mas tudo já estava bastante indicado”, disse ele à Bloomberg.

Rich Rosenblum, ex-operador do Goldman Sachs e co-fundador da formadora de mercado GSR, não acredita que a mudança seja permanente. “Acho que a combinação da fraqueza do prêmio da Strategy com o desempenho inferior do Bitcoin em relação ao ouro pode ter provocado um momento de reflexão”, afirmou. “Agora ele está feliz em realizar alguns lucros e travar uma base mais alta, caso haja mais uma queda antes de o ciclo de baixa terminar.”

O Bitcoin ganhou tração nesta semana, superando US$ 80.000 pela primeira vez desde 31 de janeiro. O ativo tem resistido melhor do que a maioria à guerra EUA-Israel contra o Irã, acumulando alta de mais de 20% desde o início dos bombardeios, no fim de fevereiro.

©2026 Bloomberg L.P.

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