Serra Verde: Única empresa que produz terras raras no país poderá ter EUA como sócio

Usina de mineradora Serra Verde, no norte de Goiás

Após o governo Donald Trump anunciar um pacote de US$ 12 bilhões para impulsionar a produção e o refino de minerais estratégicos, com destaque para as terras-raras — elementos usados na fabricação de produtos de alta tecnologia, cuja cadeia produtiva é dominada pela China —, a Serra Verde, única mineradora a produzir esses elementos no Brasil, foi a Washington na quarta-feira para assinar um empréstimo de US$ 565 milhões (R$ 3 bilhões) com a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), agência de fomento americana.

O empréstimo foi fechado num valor 22% acima do inicialmente aprovado. No ano passado, foi noticiado que a Serra Verde tomaria US$ 465 milhões com a DFC. Além do valor maior, o contrato de empréstimo dá à agência americana o direito de adquirir uma participação acionária na empresa, informou a mineradora nesta quinta-feira.

Investimentos em terras-raras crescem: US$ 2,4 bilhões de 2026 a 2030

O aumento do valor do empréstimo condiz com a perspectiva de alta nos investimentos em terras-raras no Brasil. Os investimentos deverão somar US$ 2,4 bilhões (R$ 12,6 bilhões) de 2026 a 2030, conforme mapeamento do Ibram, entidade da indústria nacional de mineração, anunciado na última terça-feira. O valor é 10,4% superior ao estimado para o período de 2025 a 2029.

Incluindo a mina da Serra Verde, no norte de Goiás, o Brasil tem oito projetos de terras-raras mais adiantados, como revelou O GLOBO no fim do ano passado. Os sete demais ainda não produzem, e estão em diferentes estágios de desenvolvimento. 

As terras-raras — essenciais para a indústria de alta tecnologia e baixo carbono, que fabrica motores elétricos, turbinas eólicas, drones e armamentos — ganharam importância geopolítica com o tarifaço de Trump. O anúncio do pacote de US$ 12 bilhões, batizado de Project Vault (“projeto caixa-forte”, numa tradução livre), foi mais um capítulo da disputa de Washington com a China.

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O Brasil tem posição estratégica nesse tabuleiro porque detém reservas potenciais de 21 milhões de toneladas totais de óxidos de terras-raras (TREO, em inglês), atrás só da China no ranking global, conforme o Serviço Geológico dos EUA (USGS). 

Os oito projetos mais avançados, em Minas, Goiás, Bahia e Amazonas, mapeados em um relatório do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), feito com o Ibram e instituições de pesquisa, somam 38% das reservas estimadas pelo USGS, com capacidade de produzir 7,98 milhões de toneladas de TREOs — o projeto da Serra Verde é de 1 milhão de toneladas.

‘Pioneira fora da Ásia’, diz empresa

A mineradora informou que assinou o empréstimo com a DFC durante o encontro ministerial que tratou do Project Vault, em Washington, na quarta-feira. Segundo a empresa, a operação “confirma a posição de liderança estratégica única da Serra Verde na indústria global de terras-raras”.

“Como pioneira comprovada na produção de terras-raras pesadas fora da Ásia, a companhia está em posição singular para atender uma ampla gama de setores considerados essenciais para a segurança econômica e nacional”, continua o comunicado.

A Serra Verde é controlada por duas empresas de participações americanas (Denham Capital e EMG) e uma britânica (Vision Blue). A produção começou em 2024 e está em fase de avanço gradual. A companhia não revela investimentos — questionada pelo GLOBO no fim do ano passado sobre as tratativas com a DFC, a empresa confirmou a negociação com a agência americana, mas evitou confirmar valores.

Participação acionária de governo americano seria minoritária, diz executivo

Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde, disse à agência Bloomberg News que a opção de compra de ações que a DFC terá com o empréstimo resultaria numa participação minoritária, sem interferência na gestão.

O executivo também avaliou que “faz todo sentido” para a Serra Verde integrar o Project Vault — embora o empréstimo tenha sido firmado no evento em Washington, eventual participação da mineradora no pacote anunciado na segunda-feira pela Casa Branca, ainda está em discussão.

— Vemos a iniciativa com bons olhos, já que pode ser uma forma de antecipar receita para projetos iniciantes e trazer um ganho de tempo até a maturidade das plantas de separação fora da Ásia — afirmou Grossi à Bloomberg News.

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