Virada chegou para a Americanas? Mercado celebra avanços, mas analistas têm cautela

A disparada de mais de 12% das ações da Americanas (AMER3) na última quinta-feira (26) levantou a questão para o mercado: o turnaround (momento de virada) da varejista finalmente começou?

O salto de dois dígitos das ações ocorreu após a companhia solicitar o fim de sua recuperação judicial (RJ), anunciar a venda de ativos e divulgar resultados que, apesar de ainda frágeis, mostram sinais de melhora.

A leitura predominante entre analistas é que houve, sim, um marco importante no processo de reconstrução da varejista — mas ainda não o suficiente para decretar uma virada estrutural.

Por ora, o movimento na Bolsa é visto como uma combinação de alívio, redução de risco jurídico e fluxo especulativo, mais do que uma mudança definitiva nos fundamentos.

Encerramento da RJ reduz risco, mas não encerra a crise

Para Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, o pedido de saída da recuperação judicial tem forte peso simbólico, mas não deve ser confundido com uma solução para os problemas centrais da varejista.

“O encerramento da RJ é um marco importante, sem dúvida nenhuma, mas não significa que a empresa já tenha resolvido seus problemas estruturais. É um avanço no processo de reestruturação, não o fim dele”, afirma.

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Segundo ele, o mercado separa bem o que é evento jurídico e o que é capacidade operacional. Cumprir as etapas do plano — venda de ativos, reorganização financeira e reestruturação societária — reduz o risco de cauda, mas não elimina o desafio de reconstruir a competitividade e recuperar a confiança de fornecedores e consumidores.

Por que as ações subiram tanto?

A forte reação vista no pregão de quinta tem diversos fatores, com uma mistura de alívio, reposicionamento e short squeeze.

Parte do movimento tem explicação técnica: alívio após redução de risco jurídico, reposicionamento de investidores que estavam fora do papel e um provável short squeeze, com fechamento de posições vendidas. “É uma combinação de alívio, reposicionamento técnico e fluxo oportunista. É natural e até saudável, mas muito especulativo”, afirma Boragini.

Esse tipo de fluxo, dizem especialistas, costuma ser intenso, mas não necessariamente sustentável.

Além do avanço jurídico, o mercado também reagiu aos números apresentados pela varejista.

O quarto trimestre de 2025 trouxe prejuízo reduzido para cerca de R$ 44 milhões, ante R$ 586 milhões um ano antes.

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Já o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ajustado ficou em R$ 276 milhões, ‌avanço de 1,9% sobre o quarto trimestre do ano anterior. Houve ainda ajustes operacionais que indicam foco maior em lojas físicas e menor exposição a operações digitais de baixa margem.

Para Cristiano Leal, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School, os resultados reforçam a narrativa de recuperação: “A empresa saiu de um cenário de colapso para um processo consistente de melhora. A redução do prejuízo é expressiva e o EBITDA positivo mostra retomada da geração operacional de caixa”, diz.

O mercado, afirma ele, está reprecificando a companhia: “É menos sobre o presente e mais sobre a trajetória de normalização”.

Outro ponto visto como positivo foi a venda da Uni.Co – dona de Puket e Imaginarium – por aproximadamente R$ 152,9 milhões. O movimento reforça o caixa e mostra que a companhia está executando seu plano de desalavancagem.

Essa entrega ajuda a reduzir a percepção de risco e melhora a disponibilidade de crédito, que tende a ser menos restritiva fora do regime de RJ.

Próximos passos

Mas o caminho ainda é longo. Apesar dos avanços, analistas apontam que o desafio mais complexo — e o que decidirá se há de fato um turnaround — ainda está à frente.

Max Mustrangi, CEO da Excellance, ressalta que o plano cumprido até aqui oferece alívio imediato, mas não garante sustentabilidade. “Eles conseguiram organizar as obrigações, injetar capital, converter dívidas e postergar pagamentos. Isso reduz a saída de caixa agora. Mas a pergunta é: a operação consegue ser lucrativa o suficiente para pagar o dia a dia e ainda o passivo reestruturado? Isso ainda não está claro.”

Para ele, o ponto crítico é a capacidade da empresa de gerar caixa de forma consistente, algo que ainda não pode ser avaliado totalmente pela ausência de balanços mais completos e atualizados.

Assim, a percepção geral do mercado é de otimismo cauteloso. O risco jurídico e financeiro diminuiu, a execução do plano até agora agrada e os resultados mostram melhora real.

O papel pode voltar ao radar de investidores táticos, mas a operação ainda é frágil, a empresa perdeu escala e o varejo segue pressionado. Assim, o turnaround exige tempo e consistência.

“É mais um ponto de inflexão do que um ponto de chegada. A tese ainda depende da execução — e isso leva tempo”, aponta Boragini.

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