“Sell in May” chegou antes no Brasil? B3 patina em abril, mas “gringo” sustenta 2026

O velho jargão do mercado — “Sell in May and go away” (ou “venda em maio e vá embora”, em tradução livre) — costuma ganhar força às portas de maio, quando investidores reduzem exposição a risco diante de um histórico de retornos mais fracos no hemisfério norte. Em 2026, porém, a sensação é de que esse movimento chegou antes na Bolsa brasileira. Abril terminou praticamente no zero para o Ibovespa, com queda de apenas 0,08%, mas deixou no ar um desconforto que contrasta com o desempenho robusto do ano até aqui.

O comportamento aparentemente contraditório resume bem o momento por aqui. Conforme destaca análise da Elos Ayta, apesar da estabilidade no fechamento do mês, o Ibovespa renovou máximas históricas em quatro ocasiões em abril e alcançou, no dia 14, os 198.657 pontos no fechamento — o maior nível da história, e ainda superando os 199 mil pontos no intraday. Ainda assim, o mês foi marcado por volatilidade, rotação de ativos e uma virada na segunda quinzena do mês passado.

No acumulado de 2026 até o fim de abril, o principal índice da B3 sobe 16,3%, liderando com folga o ranking de desempenho entre os principais ativos. É o melhor início de ano recente da Bolsa brasileira, à frente inclusive de classes defensivas como o ouro. Mas esse resultado esconde uma nuance importante: o avanço tem dono, e ele atende pelo nome de investidor estrangeiro.

O placar esconde o jogo?

Estrategistas também chamam a atenção para a crescente dissociação entre o desempenho do índice e o comportamento das ações individualmente. Em março e abril, embora o Ibovespa tenha registrado variações marginais, a maioria dos papéis recuou.

Em abril, menos de 40% das ações do índice fecharam o mês em alta, enquanto as quedas médias superaram os ganhos.

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O novo patamar reflete principalmente a melhora das expectativas de lucro das empresas listadas

De acordo com a Ágora, o índice ponderado por valor de mercado foi sustentado por poucos nomes de grande peso, enquanto métricas alternativas, como o Ibovespa com pesos iguais, apontaram uma correção mais clara. Na prática, o investidor amplamente exposto ao mercado sentiu um abril mais duro do que o número final do índice sugere.

Fluxo estrangeiro: o fiel da balança

O pano de fundo que conecta quase todos os movimentos de 2026 é o fluxo de capital externo. Segundo dados da B3, o investidor estrangeiro acumulava até 28 de abril uma entrada líquida de cerca de R$ 60,7 bilhões no mercado à vista, resultado de compras de R$ 1,77 trilhão e vendas de R$ 1,72 trilhão no período.

Ainda segundo a B3, o volume financeiro médio diário negociado em 2026 soma R$ 26,18 bilhões até abril, o melhor patamar desde 2021 e o segundo maior da história. Para a Ágora, isso reforça que essa liquidez elevada tem sido determinante para sustentar os níveis do índice, mesmo em meses de maior rotação.

As projeções indicam que cerca de 40% do fluxo estrangeiro ocorre por meio de estratégias passivas, como ETFs atrelados ao Ibovespa, o que ajuda a explicar a resiliência do índice. Os outros 60%, de perfil mais ativo, são mais seletivos e contribuem para a elevada dispersão de desempenho entre ações.

Abril foi rotação, não reversão

Se o acumulado do ano mostra uma liderança clara do Ibovespa, abril funcionou como um mês de rotação entre classes de ativos. Segundo a análise de Elos Ayta, o Bitcoin chegou a liderar os ganhos mensais, enquanto o índice de BDRs também se recuperou, indicando um respiro pontual para ativos internacionais que vinham pressionados.

Na outra ponta, dólar, euro e small caps ficaram entre os piores desempenhos do mês, movimento que reforça a leitura de que o ambiente segue desfavorável para ativos atrelados ao exterior, especialmente em um contexto de realocação global de portfólios.

Outro ponto destacado é o ritmo menos acelerado de renovação de máximas históricas. O Ibovespa bateu recordes 18 vezes em 2026 até abril, ante 32 máximas registradas ao longo de todo o ano de 2025. A leitura é de um mercado menos explosivo e mais ancorado em liquidez e fluxo.

Nesse contexto, a XP Research revisou recentemente seu cenário para o índice, elevando o valor justo do Ibovespa ao fim de 2026 para 205 mil pontos, ante 196 mil anteriormente. A casa cita como principais vetores a resiliência dos lucros corporativos, a compressão dos múltiplos e, novamente, a continuidade do fluxo estrangeiro.

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