JPMorgan mantém cautela com BB, rebaixa “bond”, mas segue com uma recomendação

A qualidade dos ativos do Banco do Brasil (BBAS3) segue como principal ponto de atenção para investidores, segundo relatório do JPMorgan sobre os resultados do primeiro trimestre de 2026 e a curva de títulos do banco. Apesar de uma receita resiliente e boa disciplina de custos, o aumento das provisões para calotes, a piora da inadimplência e a dependência de instrumentos regulatórios para sustentar o capital continuam pressionando a lucratividade da instituição.

O banco americano destaca que o cenário é, em grande medida, uma continuidade dos trimestres anteriores: lucros pressionados por crédito de pior qualidade, capitalização sob erosão gradual e um ambiente ainda desafiador para a carteira de risco. Ainda assim, o JPMorgan vê valor em um papel específico da curva do BB: o título BANBRA 5,625% com vencimento em 2031, única recomendação “overweight” (acima da média do mercado) para a instituição no momento. O título BANBRA 6,25% com vencimento em 2030, por sua vez, foi rebaixado de “overweight” para “neutro”.

Crédito lento e foco em linhas mais seguras

A carteira ampliada de crédito do Banco do Brasil cresceu apenas 0,7% na comparação trimestral e 2,2% em relação ao mesmo período de 2025, alcançando cerca de R$ 1,3 trilhão – mais próxima do piso do guidance de crescimento para 2026.

Leia também

Ibovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta terça

Índices futuros dos EUA recuam em meio a sell-off de tecnologia

O avanço foi puxado sobretudo pelo agronegócio, cuja carteira subiu 3% no trimestre, e pelo crédito ao consumidor, que teve alta de 1,4% no trimestre e 7,7% em 12 meses, com foco em linhas consideradas mais seguras, como consignado e hipotecas. Em sentido oposto, o crédito corporativo encolheu 2,2% no trimestre e 6,2% em um ano, em linha com a estratégia mais conservadora do banco nesse segmento.

Inadimplência ainda elevada e provisões em alta

Os indicadores de qualidade de ativos seguem em terreno preocupante, avalia o JPMorgan. A inadimplência de 90 dias atingiu 5,0% no 1º trimestre, acima dos 3,5% observados um ano antes, apesar de uma leve melhora trimestral. Essa melhora, porém, é explicada em grande parte pela venda de cerca de R$ 3,6 bilhões em créditos corporativos inadimplentes, e não por um ganho estrutural na carteira.

No varejo e no agronegócio, a situação continua se deteriorando, com crescimento tanto da inadimplência quanto dos créditos classificados como Stage 3 (os de maior risco). As baixas a prejuízo (charge-offs) praticamente dobraram em 12 meses, reforçando a percepção de que a pressão sobre a carteira de crédito está longe de ser pontual.
Diante desse quadro, o Banco do Brasil revisou para cima seu guidance de despesas de provisão para 2026. A faixa estimada passou de R$ 53–58 bilhões para R$ 65–70 bilhões, após o banco observar recuperações (collections) cerca de 25% abaixo do esperado em abril. O JPMorgan classifica esse aumento de provisões como o principal ponto negativo do resultado, por indicar que os ventos contrários de crédito devem continuar ao longo do ano.

Capitalização depende de medidas regulatórias

Embora o Banco do Brasil continue acima dos mínimos regulatórios de Basileia, o JPMorgan chama atenção para a qualidade dos fatores que sustentam o índice de capital. O índice de capital total (CAR) caiu para 14,2% no trimestre, com CET1 em 11,6%, ambos em queda frente ao final de 2025.

A redução reflete aumento de ativos ponderados pelo risco, mudanças regulatórias (como o fim de programas anticrise da pandemia) e maiores ajustes prudenciais ligados a créditos tributários. Parte da “folga” de capital vem da Medida Provisória 1.314, que tem efeito positivo sobre os índices, mas é vista como uma forma de suporte regulatório de menor qualidade. O banco americano também ressalta a baixa densidade de RWA (risco), o que, em sua visão, torna a robustez de capital menos sólida do que os números sugerem à primeira vista.

Do lado da receita, o desempenho segue positivo. A margem financeira (NII) subiu 14,8% em 12 meses, e o NIM (margem sobre ativos) avançou de 4,5% para 4,9%, impulsionado por maior participação de crédito ao consumidor e melhor resultado de margem com o mercado. O banco, inclusive, revisou para cima seu guidance de crescimento de NII, que agora aponta para expansão entre 7% e 11%.

As despesas operacionais permanecem sob controle, com alta moderada, o que mantém a relação custo/receita em patamar considerado saudável. Mesmo assim, a combinação de provisões recordes, maior nível de litígios e menores “outras receitas” levou a mais um trimestre de baixa rentabilidade, com retorno sobre o patrimônio (ROE) em torno de 7%.

Curva de títulos

Apesar de manter visão predominantemente neutra sobre a curva de títulos do Banco do Brasil, o JPMorgan identifica uma oportunidade específica no papel BANBRA 5,625% com vencimento em 2031. Segundo o banco, a combinação de spread, preço e duration torna esse título mais atrativo do que outros da própria curva do BB e do soberano brasileiro.

O papel é negociado ligeiramente abaixo do valor de face, oferece um z-spread cerca de 50 pontos-base acima do soberano e apresenta ganho em relação a outro título do BB com vencimento similar (BANBRA 6,0% 2031), por um acréscimo modesto de duration. A taxa de retorno até o vencimento (YTW) estimada é de 5,7%, acima dos 5,5% do papel comparável.

Nesse contexto, o BANBRA 5,625% 2031 é a única recomendação “overweight” do JPMorgan para o Banco do Brasil.

Rebaixamento do título para 2030

Já o título BANBRA 6,25% 2030 foi rebaixado de “overweight” para “neutro”. O JPMorgan argumenta que o título teve forte performance recente, com compressão de cerca de 26 pontos-base no spread, e hoje negocia em níveis considerados justos: ele chega a ser mais caro do que outros papéis da mesma curva e, embora ainda pague prêmio em relação ao soberano, esse diferencial não é visto como suficiente para justificar uma posição acima da média.

O BANBRA 4,875% 2029 também permanece com recomendação neutra. Para o banco, o papel está “apertado” dentro da curva do BB, com pouco prêmio sobre o soberano, ainda que pareça razoavelmente alinhado quando comparado a títulos de bancos da região e ao diferencial de risco entre Brasil e México.

Volatilidade eleitoral

O JPMorgan lembra ainda que, em um ambiente de spreads de crédito relativamente apertados no Brasil, o risco de volatilidade eleitoral não é plenamente refletido nos níveis atuais. Esse fator é considerado particularmente relevante para o Banco do Brasil, por ser uma instituição controlada pelo governo federal.

Por isso, mesmo reconhecendo que os títulos do BB negociam com prêmio em relação a bancos privados, o banco americano prefere manter postura cautelosa na maior parte da curva, recomendando exposição acima da média apenas no BANBRA 5,625% 2031.

The post JPMorgan mantém cautela com BB, rebaixa “bond”, mas segue com uma recomendação appeared first on InfoMoney.

Mais Notícias

Solicite uma proposta

Receba uma proposta personalizada para atender às suas necessidades financeiras. Nossa equipe está pronta para oferecer a melhor solução, seja para a antecipação de recebíveis ou para investimentos em debêntures. Estamos aqui para ajudar você a alcançar seus objetivos com segurança e eficiência.